Conclusão dos debates reuniu proposições do coletivo de professores sobre as condições atuais da educação escolar indígena no RS, nesta sexta, 25.
No segundo e último dia de discussões, a Jornada Pedagógica dos professores indígenas Kaingang e Guarani, alcançou intensidade nos diálogos sobre a escola indígena e as forma de pensar este espaço importante.
Com realização da Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul (Seduc), a formação foi mediada pela Organização Indígena Instituto Kaingáng, Inka, que tem por missão o fortalecimento, valorização e reconhecimento da educação e cultura indígena Kaingang.
Reunidos no Pontão Kaingang, um ambiente inspirador, artístico, literário e cultural indígena, os professores realizaram esforços por um consenso sobre as demandas mais urgentes na educação escolar indígena do Estado. Para auxiliar nesta tarefa, a equipe do Inka fez uso de metodologias específicas para povos indígenas.
Alcance de metas
Entre os principais apontamentos, estão ao menos quatro eixos de propostas elencadas pelos professores como a formação, o ambiente escolar e comunidade, valores promovidos pela escola e competências, equipe e infraestrutura.
No eixo da formação foram pautadas questões como a promoção de oficinas, cursos e formações para professores indígenas de maneira continuada, com criação de métodos de ensino e produção de materiais didáticos na língua Kaingang e Guarani, e uso de metodologias que abrangem os costumes, tradições e saberes de cada povo.
No eixo ambiente escolar e comunidade, surgiu o desejo de aproximação entre elas, uma escola comunitária onde as famílias tenham vez e voz nas discussões sobre a educação escolar de seus filhos, com educação acolhedora e tradicional, autônoma, autêntica, inclusiva, e de acordo com a necessidade da comunidade.
No eixo valores promovidos pela escola, foi apresentada uma escola cidadã, formadora de cidadãos críticos, que ensina não apenas a ler e escrever na língua portuguesa, mas que também preserva e promove a língua materna de cada povo como parte fundamental do seu conhecimento e cultura.
O último eixo foi o de infraestrutura, equipes e competências, a partir de uma escola com infraestrutura adequada, sem ser provisória, com trabalho de equipes unidas, apoiando o interesse da comunidade, cooperativas, com objetivos compartilhados e coordenação pedagógica indígena, com profissionais engajados e comprometidos em fazer a diferença.
No encerramento, foi lida e aprovada a Carta de Coxilha, um documento produzido coletivamente pelos professores e profissionais indígenas participantes na Jornada Pedagógica. Leia abaixo o documento na íntegra.
Baixe a CARTA AQUI.
Informações: Sônia Kaingang
Fotos: Sônia Kaingang e Arian Kãgfér
CARTA DE COXILHA, PONTÃO KAINGANG.
Nós, professores indígenas Kaingang e Guarani do Estado do Rio Grande do Sul, presentes na Jornada Pedagógica, com realização da Secretaria de Educação do RS/SEDUC, e conduzida pela Organização Indígena Instituto Kaingáng, INKA, presentes nos dias 24 e 25 de julho no Pontão Kaingang, na cidade de Coxilha, escrevemos essa carta para apresentar as demandas enfrentadas no nosso cotidiano e nas nossas escolas indígenas situadas nos territórios que consideramos sagrados, sejam localizados nas terras demarcadas ou acampamentos.
Em nossas reflexões compartilhamos nosso dia a dia, os problemas enfrentados, ansiedades, alegrias, conquistas e avanços. Percebemos o quanto o mundo não indígena entrou na nossa escola, a escola que tanto almejamos para nossas comunidades, e como consequência, percebemos o quanto nossos alunos têm absorvido essa realidade que culturalmente não nos representa. Essa é uma das preocupações que temos na atualidade, também somos conscientes que nos falta união para lutar contra esse sistema que nos impõe uma educação que não é a nossa, pensada e vivida por nós indígenas.
Nossa principal reflexão foi pensar na educação escolar indígena enquanto coletivo de professores. Enfrentamos a resistência por parte da SEDUC-RS em poder praticar a educação escolar indígena que pensamos, e como consequência, esse tipo de educação não desperta em nossos alunos o desejo de estar nessa escola. Nossa falta de protagonismo produz resistência em compreender nosso modo de ensinar nas comunidades, já que a influência da educação escolar não indígena está presente, pois a SEDUC-RS nos impõe regras para desenvolver a nossa educação escolar indígena, de forma específica e diferenciada.
Exigimos que os próximos concursos, tenham a participação de representantes indígenas do estado do RS na criação dos editais, para que se contemplem todas as demandas das comunidades.
Exigimos que a comissão de avaliação dos concursos indígenas do RS levem em consideração os cinco dialetos indígenas e que as provas do concurso na língua Kaingang sejam construídas e corrigidas por quem domina os cinco dialetos falados atualmente e que esses representantes sejam de dentro do estado do RS.
Também oferta de vagas nos concursos púbicos específicos para todas as coordenadorias de educação do estado do RS, independente de demandas e que essas vagas contemplem todas as áreas do conhecimento. Além do diálogo direto com os responsáveis das tomadas de decisão sobre a educação indígena no estado, e não com representações.
Exigimos que as supervisões e coordenações das escolas indígenas sejam ocupadas especificamente por professores indígenas, que haja participação nos debates sobre a educação indígena no estado, e que todos os representantes sejam indígenas.
Queremos a reativação do NEI, (Núcleo de Educação Indígena) com novos componentes, escola indígenas com tempo integral, e indicamos os professores Nelson Jota Bento e Clarice Kokoj Vergueira da 1ª CRE, Ilinir Roberto Jacinto e João Maria Fortes da 20ª CRE, Ivone Daniel da 7ª CRE, Jucemari da Silva Corrêa da 4ª CRE, Fabiana Camargo e Tito Tadeu da 21ª CRE, Silvio Farias e Édimo Franco da 15ª CRE, Joceli Sales da 8ª CRE, Evanice da Silva da 9ª CRE, Alcione Fortes da 39ª CRE e Narciso Jota Antônio da 2ª CRE.
Que a pasta da educação indígena seja separada da pasta da educação do campo, respeitando a cultura indígena. Que os professores que atuam na língua Kaingang sejam priorizados na condução das turmas.
A criação de uma Subsecretaria ou Coordenação dentro da SEDUC-RS para atender a Educação Escolar Indígena composta por uma equipe de professores indígenas, com autonomia nas decisões. Que a SEDUC disponibilize um assessor técnico para auxiliar na construção da matriz curricular para as escolas indígenas.
São as nossas reivindicações nessa Jornada Pedagógica.
Coxilha, Rio Grande do Sul, Brasil, 25 de julho de 2025.




















