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Tem início Jornada Pedagógica no Pontão Kaingang em Coxilha, RS

Primeiro dia da formação reuniu apontamentos dos professores Kaingang e Guarani do RS sobre as condições históricas e atuais da educação escolar indígena, nesta quinta, 24.

De forma inédita, um encontro realizado pela Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul (Seduc), foi conduzido pela Organização Indígena Instituto Kaingáng, Inka, voltado à formação de professores indígenas Kaingang e Guarani.

O formato do evento, no modelo de formação, é bem conhecido e defendido pelos professores indígenas, que segundo eles, não ocorria há pelo menos uma década, um indicativo que aponta o cenário de entraves, barreiras e desafios enfrentados pelos professores em busca de qualificação em sua área de atuação.

A abertura dos trabalhos foi realizada pelo líder espiritual do povo Kaingang da Terra Indígena Nonoai, Pedro Garcia, seguida de uma roda de conversa mediada pela gestora do Instituto Kaingáng, Susana Fakój, que abordou a trajetória do Inka, iniciando com o trabalho inestimável junto aos Kanhgág Kófa, os velhos Kaingang, que por meio de seus direcionamentos e saberes, deram origem aos alicerces de atuação do Inka ao longo das últimas duas décadas, resultando no fortalecimento e valorização da cultura e educação indígena Kaingang.

Susana ainda destacou o papel crucial da valorização da língua, história e arte indígena presente nas ações do Instituto Kaingáng e seu impacto em termos de patrimônio cultural tangível como a formação do acervo artístico indígena do Pontão Kaingang mediante os projetos aprovados pelo Inka junto ao governo na área cultural.

A antropóloga e vice-presidente do Instituto Kaingáng, Daniza Jagso, e a educadora e colaboradora do Inka, Laisa Sales, mediaram a roda de conversa sobre língua e literatura tradicional, onde os professores indígenas propuseram a contação de pelo menos três histórias para a criação de livros bilíngues na cosmovisão Kaingang.

A Educação Escolar Indígena Kaingang ao longo de 50 anos

Na mesa da tarde, os professores participaram de um debate liderado pela fundadora e presidente do Inka, a educadora Andila Kaingang, que narrou acontecimentos da educação escolar indígena que marcaram a história, muitos deles desconhecidos pela geração recente de professores indígenas, trazendo um contraponto entre os objetivos da educação escolar indígena da época e os desafios contemporâneos dos professores em sala de aula e fora dela.

“Não há como dissociar cultura da educação, assim tem sido a nossa trajetória. Se não tivéssemos escrito nossa língua, ela haveria se perdido. A própria mentalidade de formação dos professores indígenas vem de uma necessidade lá de trás, de um tempo onde tínhamos de nos encontrar de noite, pelos corredores para conseguir discutir o que era importante para nós, estamos fartos de imposições. Não podíamos ser professores, diretores, somente monitores, ou fazer a limpeza ou a merenda. É muito difícil acontecer a educação específica com uma pessoa não indígena em alguns espaços, embora cada um faça sua parte para conseguirmos avançar”, refletiu Andila.

Junto aos professores, Andila fez uma análise em que é preciso continuar caminhando e fortaleceu os participantes da Jornada.

“Hoje a situação é diferente porque temos legislação específica, professores graduados, temos o ensino superior. Vocês precisam dar continuidade ao que já alcançamos, não podem pensar que não avançamos. Eu quero falar para vocês que se desistirem estamos acabados como povo, vocês precisam continuar escrevendo, resgatando, escutando nossos velhos e trazer para a sala de aula, precisamos garantir isso dentro das escolas”, ensinou Andila.

Participante da Jornada, o professor Kaingang da Terra Indígena Pinhalzinho, João Fortes, acompanha a educação indígena desde os anos 90 e observa avanços e retrocessos em vários aspectos.

“As mudanças de governo que acontecem periodicamente atrapalham muito a afirmação da política pública para a educação indígena. Quando a gente acha que vamos progredir, daí as coisas começam tudo de novo e a gente não consegue alcançar o nosso objetivo, esse é um grande problema que temos na área da educação. O que a escola indígena precisa é de política pública permanente para termos uma referência de como concluir esses trabalhos, esses planejamentos, esses projetos que temos para a escola indígena, é isso que precisamos”, relatou João.

O representante do povo Guarani, Edinho da Silva, veio de Bagé e destacou que a luta em sua comunidade é a inexistência de uma escola dentro da aldeia. “Eu leciono no espaço cedido pelo Estado fora da aldeia, essa é a nossa reivindicação, que estamos na luta para conseguir uma escola”.

Em sua fala na Jornada, a professora Kaingang e primeira mulher a trabalhar na Seduc, Sueli Krengre Cândido, se dirigiu aos participantes com boas perspectivas. “Estou esperançosa da contribuição que vimos aqui de muitos, nós que estamos em sala de aula sabemos das necessidades, não venham outros dizer para nós o que tem de ser (porque nós ainda temos direção não indígena) e eles querem direcionar do jeito deles o nosso planejamento, a nossa escola. Que a Seduc possa contribuir de verdade favorecendo a educação”, pontuou.

Andila agradeceu a Seduc, “que nos ajudou a conduzir esse trabalho” e concluiu, “eles tem a função deles e nós entramos com a nossa”.

A programação da Jornada segue amanhã, sexta, 25, até a tarde.

Informações e fotografias: Sônia Kaingang, jornalista indígena independente, cobre os temas de Biodiversidade, Educação e Cultura Indígena.

PALESTRA DE ANDILA KAINGANG AOS PROFESSORES INDÍGENAS PARTICIPANTES DA JORNADA PEDAGÓGIGA.
ANTROPÓLOGA E VICE-PRESIDENTE DO INSTITUTO KAINGÁNG, DANIZA JAGSO.
LIDERANÇA ESPIRITUAL KAINGANG, PEDRO GARCIA, DA TERRA INDÍGENA NONOAI.
PARTICIPANTES DA JORNADA PEDAGÓGICA NO PONTÃO KAINGANG, EM COXILHA, RS.
DINÂMICA COM OS PROFESSORES INDÍGENAS.
ERVAS, TECELAGEM, CESTARIAS E CERÂMICA INDÍGENA KAINGANG.

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